sexta-feira, 11 de outubro de 2013

CARTEIRA DE SENHORA

DIA 88
 
Em dia de capicua, a carteira decidiu-se por um desafio. Quer então a excelsa cronista conhecer mais do país onde está emigrada, pedindo breve descrição geográfica e sociológica acompanhada de resenha estatística. Aceito. E quem melhor para lhe proporcionar uma visão perfeita e íntegra senão os nossos governantes? As suas prudentes decisões procedem sem dúvida dos seus vastíssimos conhecimentos do país! Vejamos.
 
Portugal
(aos olhos de um governante)

Área geográfica do território: Lisboa e arredores, com pequenos enclaves no Porto.
 
Área geográfica da paisagem: zona desértica a sul de Almada e a Norte de Sintra, zona de veraneio no extremo sul.
 
Clima: moderado por ar condicionado no Verão e aquecimento central no Inverno.
 
Média etária da população: 25 anos.
 
Nível de escolaridade da população: licenciatura e amplos conhecimentos de informática como utilizador.
 
Moeda: germânica.
 
Salário médio mensal: 10.000 €.
 
Nível de tributação: deficiente, larga margem de manobra.
 
Computadores: um por habitante.
 
Rede de transportes públicos: total cobertura do país por carreiras de autocarro e metropolitano com paragens em todas as ruas.
 
Rede ferroviária: total cobertura do país com todas as estações e apeadeiros aprendidas na 4ª classe.
 
Rede de auto-estradas: insuficiente, a necessitar de mais alternativas às existentes.
 
Rede de saúde: total cobertura do país - centros de saúde a quinhentos metros, hospitais a um quilómetro de cada habitante.
 
Rede escolar: total cobertura do país – a não mais do que dois quilómetros de cada criança.
 
Correios: ao virar de qualquer esquina.
 
Repartições de finanças: ao virar de qualquer esquina.
 
Rede de telemóveis: alcance máximo, sem falhas em local algum.
 
Rede de Internet: alcance máximo, sem falhas em local algum.
 
Património: obstáculo ao progresso; para demolição.
 
Língua: minudência; para destruir.
 
Educação: a progredir, turmas ainda pequenas e currículos difíceis.
 
Justiça: célere e acessível em demasia.
 
Forças Armadas: minudência; para destruir.
 
Amigos de Portugal: os estrangeiros (todos).
 
Os amigos íntimos de Portugal: a Senhora Dona Europa e o trio que não é de Odemira.
 
Inimigos de Portugal (rotação semanal): funcionários públicos (em geral), professores, médicos, juízes, farmácias, empregados, profissionais liberais, pequenas empresas, políticos independentes.
 
Os mais perigosos inimigos de Portugal, a abater: reformados, viúvas, órfãos, aldeias e freguesias.

 
Visto assim, temos sido imensamente ingratos. Quão sábios têm sido os nossos governantes…
 
Leonor Martins de Carvalho